Foto: Mauricio Melo
"Muitas empresas só fazem de conta que agem em prol do meio ambiente"
ENTREVISTA
Um dos pioneiros no debate sobre a questão ambiental no Brasil, Israel
Klabin, diz que a Rio+20 pode ser uma oportunidade para promover o inadiável
casamento entre a economia e sustentabilidade.
Gabriele JimenezVeja - 23/05/2012
Boa parte dos compromissos firmados na Eco 92 não foi levada adiante.
Como fazer para que isso não se repita na Rio+20? Quero deixar
claro que a Eco 92 foi a mais relevante reunião já ocorrida para discutir a
questão ambiental. Todos os chefes de estado estiveram presentes e discutiu se
um pensamento novo, que não ameaçava ninguém e prometia muito. As conversas
transcorreram em nível elevado, mas emperraram na hora da execução por um
problema fundamental. O modelo atual de gestão dos governos e órgãos decisórios
estava e permanece ultrapassado. Isso impede que se ponham em prática todos os
grandes projetos. É preciso modernizar as Nações Unidas e todos os instrumentos
sob seu guarda chuva, onde, nas votações, os interesses nacionais muitas vezes
se sobrepõem aos internacionais.
Isso quer dizer que não devemos
ter muitas expectativas em relação à Rio+20? Veja, a Rio+20 não é
uma reunião de tomada de decisões. E um encontro para a formulação de uma nova
maneira de pensar o desenvolvimento. Isso me agrada bastante, apesar de muitos
acharem que não levará a nada. É preciso ter em mente que nunca vamos conseguir
tudo, mas pela primeira vez percebo que estamos saindo da esfera de discussão
sobre os efeitos e caminhando para a discussão sobre as causas do problema, com
o modelo econômico e político de um lado e a inclusão social do outro. Isso
seguramente será discutido na conferência. Sem dúvida, é um avanço. Se teremos
apenas mais uma declaração ou caminharemos para a mudança efetiva das políticas
públicas, isso é outra questão.
O Brasil e os outros emergentes
podem ser os protagonistas na defesa da causa ambiental? Sem
dúvida. Nós não estamos congelados nem fossilizados em modelos políticos e
econômicos, como os países desenvolvidos. Estamos num caminho de transição, que
seguramente permite rápida adaptação a uma nova economia, a novas relações de
troca e até a novas moedas. A China é um problema, pois lá existe um conflito
entre o modelo de governo e o modelo econômico. Mas, em geral, os emergentes têm
mais condições de assumir a liderança na defesa de um mundo mais sustentável.
É possível haver avanços significativos sem a cooperação dos Estados
Unidos? Acho difícil. Aos Estados Unidos, um grande produtor,
consumidor e detentor do poder da indústria de energia fóssil cabe investir
pesadamente em inovação. Se eles conseguissem inovar em termos de acesso a
energias limpas, o mundo seria completamente diferente. Há muitos parlamentares
americanos com quem já conversei que têm posições claramente favoráveis a
adaptações da economia às questões ambientais. No entanto, quando a discussão se
torna política, eles sao impedidos de promover mudanças pela reação dos blocos
parlamentares mais atrasados.
O senhor é um ambientalista de
primeira geração. Como vê o avanço dessa questão? Ela caminhou
bastante. Primeiramente, uma série de métodos e sistemas aplicados em outras
áreas passou a ser uma ferramenta a serviço também da sustentabilidade. o que
não ocorria. O exemplo mais marcante foi o Proto- colo de Kyoto, que estabeleceu
um sistema de "pagamencos" por parte dos poluidores pela emissão de carbono.
Hou ve ainda o aperfeiçoamento dos modelos de
produção. A evolução talvez mais relevante ocorreu na opinião pública, que se
tomou uma plataforma de combate fundamental na formulação de todas as políticas
públicas presentes e futuras. Finalmente, registraram-se progressos específicos
importantes nas tecnologias com impacto benéfico sobre a preservação ambiental.
A preservação do meio ambiente está bastante disseminada em
bairros, cidades, estados. Pode chegar o dia em que ela prescinda de ações do
governo central?
A evolução se dará de cima para baixo e de baixo
para cima, simultaneamente. Quando comecei a trabalhar com meio ambiente, havia
um slogan em inglês que dizia: pense globalmente, aja localmente. É
impressionante ver como a nova geração está assimilando essa ideia em seu
comportamento. A transferência dos valores de conser- vacão, preservação e ética
ambiental é feita por meio da cultura. Por isso, é preciso educar as famílias e
os professores, em primeiro lugar. Na esfera federal, temos uma boa ministra do
Meio Ambiente, mas ainda falta transpor os obstáculos criados pela inércia de
modelos que já estão ultrapassados. A tão falada necessidade de novas áreas de
plantio é uma falácia. Precisamos é de tecnologias cada vez mais avançadas para
elevar a produtividade nas áreas já existentes. O orçamento da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. deveria ser quintuplicado. A
inovação é fundamental para ativar os pilares da sustentabilidade.
Quais são esses pilares?
São dois. Um consiste no
estímulo e na divulgação de novas técnicas e tecnologias que contribuam para um
mundo sustentável. Defendo, inclusive, a criação de um órgão que centralize e
facilite a troca de informações entre países. O outro pilar é a renovação dos
conceitos de gestão e decisão em todos os níveis, globalmente. É preciso
reformar não só a ONU. mas também o Fundo Monetário Internacional e o Banco
Mundial. São órgãos criados com reflexo na estrutura mundial de poder derivada
da II Guerra Mundial que foram ficando ultrapassados. É necessário ainda
reformular os modelos de governo e de gestão do setor público em cada país.
Em que medida?
Estamos vivendo em um mundo
globalizado, e isso é um avanço. Nesse contexto, o conceito de nacionalismo tem
de se transformar, precisa adequar seus limites à grade da globalização. O
renascimento do nacionalismo em várias partes do mundo é um perigo que vai
contra o conceito de sustentabilidade, por defender atitudes que não levam em
conta as necessidade do planeta como um todo. Outra exigência da globalização é
a criação de um novo sistema de indexação das riquezas nacionais e a
transformação do produto interno bruto (PIB) em um indi- cador que permita a
aferição de valores não computados atualmente, entre eles os custos ambientais.
Economia e meio ambiente estão se tornando coisas interligadas. A formatação da
nova economia, que já se vislumbra, terá de incluir necessariamente o fator
socioambiental.
O que os governantes podem fazer para estimular
as empresas a aderir ao modelo sustentável? A primeira coisa é
adotar o que chamamos de triple bottom line, as três linhas básicas — ambiental,
econômica e social — para reger a economia como um todo. Cabe ao estado dar o
exemplo, tanto no consumo responsável quanto no monitoramento dos recursos
naturais não renováveis. Os governos também precisam usar com eficiência os
mecanismos de que dispõem para regular o setor privado. Isso sem, evidentemente,
ferir os princípios básicos da livre iniciativa, mas estimulando um
comportamento responsável em relação ao meio ambiente. O estado tem todos os
instrumentos necessários, sejam eles cirúrgicos ou intervencionisias, para fa-
zer com que as empresas levem de fato adiante a ideia de sustentabilidade. Falo
de recursos para tributar, fiscalizar e penalizar. O governo deve ter o poder de
tributar adequadamente o uso de energias poluentes e premiar a adoção de
energias alternativas limpas.
Houve ainda o aperfeiçoamento dos modelos de produção. A evolução talvez mais
relevante ocorreu na opinião pública, que se tomou uma plataforma de combate
fundamental na formulação de todas as políticas públicas presentes e futuras.
Finalmente, registraram-se progressos específicos importantes nas tecnologias
com impacto benéfico sobre a preservação ambiental
A preservação do meio ambiente está bastante disseminada em bairros,
cidades, estados. Pode chegar o dia em que ela prescinda de ações do governo
central? A evolução se dará de cima para baixo e de baixo para
cima, simultaneamente. Quando comecei a trabalhar com meio ambiente, havia um
slogan em inglês que dizia: pense globalmente, aja localmente. É impressionante
ver como a nova geração está assimilando essa ideia em seu comportamento. A
transferência dos valores de conser- vacão, preservação e ética ambiental é
feita por meio da cultura. Por isso, é preciso educar as famílias e os
professores, em primeiro lugar. Na esfera federal, temos uma boa ministra do
Meio Ambiente, mas ainda falta transpor os obstáculos criados pela inércia de
modelos que já estão ultrapassados. A tão falada necessidade de novas áreas de
plantio é uma falácia. Precisamos é de tecnologias cada vez mais avançadas para
elevar a produtividade nas áreas já existentes. O orçamento da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. deveria ser quintuplicado. A
inovação é fundamental para ativar os pilares da sustentabilidade.
Leia a entrevista na íntegra, em:
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/entrevista-israel-klabin-questao-ambiental-economia-sustentabilidade-685865.shtml?func=1&pag=1&fnt=9pt
Por que isso ainda não está
sendo feito? O problema é convencer os governantes de que isso é
fundamental e que este é o momento certo. A humanidade vive o fim de um ciclo
histórico, que começou no século XVIII, marcado pela procura da liberdade
individual e pela incorporação dela dentro de um convívio social. O ciclo
econômico, que teve início logo depois da II Guerra Mundial e foi baseado no
dólar, a moeda do país vencedor, também está terminando. Tenho esperança de que
essa confluência de fim de ciclos seja aproveitada para estabelecer novas
relações sociais, econômicas e ambientais, um novo modelo de convivência e de
inclusão social, em que Europa e África compartilhem dos mesmos valores.
Os hábitos de consumo têm um papel nisso?
Sem
dúvida. Sem consumo sustentável, haverá exaustão de recursos naturais. Antes
disso, porém, podemos encontrar, através da inovação, substitutos para esses
recursos. Há algum tempo participei de uma conferência com um grupo de
parlamentares americanos. Eles me perguntaram como eu podia ser tão radicalmente
contra os combustíveis fósseis, já que mais de 85% da humanidade depende de
energia produzida por petróleo e carvão para sua subsistência. Eu disse que não
sou contra petróleo ou carvão, mas contra as emissões produzidas pelo uso deles.
Por meio da inovação tecnológica, as emissões podem ser reabsorvidas. de uma
maneira ou de outra. Isso já está sendo estudado, embora haja resistência ao
investimento nessas pesquisas por parte de indústrias acostu- madas a poluir sem
ser penalizadas. O verdadeiro avanço seria a mudança do sistema a partir de sua
própria ori- gem, que é a energia. Quando tivermos energia limpa a custo baixo,
toda a malha da produção e do consumo se readaptará a ela.
Como
o consumidor pode interferir no processo? Cabe a ele o papel de
punir, em suas escolhas, as empresas não sustentáveis. As pessoas também
precisam estar muito atentas às empresas que fazem de conta que praticam a
sustentabilidade, mas só na fachada, como mera ferramenta de marketing.
Identificamos isso. Há muita desonestidade. De modo geral, as pessoas já estão
bastan- te conscientizadas de seu papel, mas é preciso mais. A meu ver, é
necessário inserir o custo ambiental no preço final dos produtos, taxando mais
os que são menos verdes. Seria uma forma de punição de práticas condenáveis,
levando o consumidor a optar por produtos feitos com matérias primas renováveis,
que ficariam mais baratos.
O senhor afirma que a ONU falha
sistematicamente na questão das mudanças climáticas. Como acha que essa
discussão deveria ser encaminhada? Vejo a coisa de modo muito
simples. Hoje. metade das emissóes do planeta é feita por dois países. China e
Estados Unidos. Se somarmos outros oito países, teremos os responsáveis por mais
de 80% das emissões planetárias. Eles é que deveriam estar se reunindo e
procurando uma solução de consenso. Na ONU. com uma platéia de quase 200 países
com interesses nacionais diversos, nunca vamos encontrar consenso. Por isso, sou
a favor de uma reunião entre os maiores poluidores do planeta, apoiada
universalmente, para acharmos uma solução.
O senhor é amigo
pessoal de Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano. Vocês se falam
freqüentemente?
Sempre trocamos figurinhas. Acho que sou um dos
amigos mais amigos dele. Ele veio ao Brasil a meu convite e ouvimos juntos pelo
rádio a partida em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo de 1962. Fizemos um bolão
e ele ga nhou. A partir daí. Tornou-se fã do futebol. Kissinger vê o jogo como
um campo de batalha, no qual ele estuda as posições dos diversos exércitos e
enxerga estratégias militares.
Na questão ambiental vocês
concordam? Não. Basicamente, ele diz: "Fique na sua área que eu
fico na minha". Eu penso no mundo do futuro e ele está pensando nos conflitos do
presente. Acho que nós dois. de cena forma, temos razão.